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4.3.04

Veríssimo e o casamento gay (ou, por uma visão profunda do casamento contra a superficialidade da sociedade atual) 

A coluna do Veríssimo no jornal O Globo de hoje é, em vários aspectos, um desastre. Pode até que ser que o famoso humorista, tido por muitos também – e simultaneamente – como um sério pensador sobre a vida social e política brasileira, esteja apenas refletindo opiniões hoje comuns em nosso meio. Mas isso não invalida o fato de que esse formador de opinião seja um veículo do aumento da confusão e diminuição da claridade dos argumentos em torno de um assunto muito importante: o futuro da família.

Na coluna, Veríssimo endossa lugares-comuns duvidosos; enreda-se numa completa salada filosófica sobre a relação amorosa; faz uma afirmação falsa, senão mentirosa, sobre princípios religiosos; e transforma o casamento numa simples e pomposa formalidade. Senão, vejamos.

Ele afirma que gays desejam casar-se por serem "mais conservadores que seus críticos" e imagina que na maioria dos casos buscam "toda a carga de tradição e emoção" dos casamentos de seus pais. A seguir, filosofa sobre o "feminino" e o "masculino" presentes em todas as relações homossexuais, pelo menos nas características de personalidade e comportamento dos parceiros sexuais, ou seja, "em espírito". Para ele, isso tornaria essas relações perfeitamente aceitáveis para os sistemas religiosos, que postulam encontrar-se a pessoa essencialmente no “espírito” e não no corpo, que é "transitório". Quer dizer, se os "espíritos" têm o sexo oposto, tudo bem, é a mesma coisa, e as religiões são "materialistas e contraditórias" ao condenar a homossexualidade. (E a gente que achava que o sexo dos anjos era sinônimo de discussão fútil...) Por fim, o sério humorista reafirma sua convicção de que tudo isso significa que os gays seguem a tendência geral das novas gerações por "parâmetros formais" e "cerimônia". O que seria o casamento, a não ser precisamente uma cerimônia formalista, repetitiva e chata?

Me permito, se me permitem, indicar as principais pré-concepções presentes nessa linha de "pensamento". A primeira é a de que os gays querem simplesmente ter acesso à mesma instituição que os heterossexuais, com toda a tradição e emoção que ela envolve. A segunda é a de que o que as pessoas são é uma questão puramente subjetiva – o "espírito" – algo que não tem relação nenhuma com determinações e limitações objetivas, físicas ou psíquicas, podendo, portanto, ser objeto de construção ou reconstrução por parte de cada um. A terceira é a de que as religiões concordam com isso, pois entre corpo e espírito, preferem o espírito e consideram o corpo um veículo transitório. A quarta é uma reelaboração da primeira, que diz do casamento ser apenas uma formalidade que traz em seu ritual elaborado uma aparência de seriedade e muita emoção: "véu, grinalda e gravatas prateadas opcionais".

E tudo isso pode ser resumido a duas palavras: subjetivismo e sentimentalismo.

No entanto, o que está em jogo é muito mais do que aparência, emoção, ou a satisfação das necessidades subjetivas de cada um através de rituais, emoções e relacionamentos sexuais entre espíritos opostos. Para começar, o casamento não é uma simples cerimônia, é a base da constituição da família, a instituição humana onde as pessoas primeiro aprendem a ser pessoas. Ou seja, o casamento cria o ambiente seguro e estável onde as pessoas em formação aprendem a se relacionar sobre o fundamento de valores, atitudes e linguagens comuns, por meio de rituais e doações mútuas, cotidianas, de bens, serviços, afetividade, apoio moral.

Seja qual for a cultura, as crianças humanas sempre precisaram do apoio, da nutrição de comida, conhecimentos, valores e afetos que as famílias, nucleares ou estendidas, lhes podem fornecer. Modelos de conduta e relacionamento, o pai e a mãe (os pais, as mães) são mais do que companheiros de vida dos filhos, são sua base relacional, sua ligação com o passado e suporte para os passos futuros. E a civilização ocidental, com sua ênfase sobre a unicidade da pessoa, trouxe para o interior dessa relação a força do amor pessoal, sacrificial de si mesmo, que constitui a gratuidade e a entrega de vida de um pai e uma mãe um pelo outro e pelos filhos. A Igreja Católica viu nesse ambiente – a partir mesmo de sua herança israelita – o desígnio do próprio Deus para o ser humano, e elevou-o à condição de um sacramento em que a entrega mútua dos esposos revela a entrega de Jesus pela Igreja. Esse é Matrimônio celebrado nos altares, verdadeiro sentido da tradição e motivo da emoção que o circunda (mas não o define).

É essa, aliás, a razão profundamente social – a criação e a proteção das crianças – pela qual o Estado abre mão de receitas e envolve a família com determinados "privilégios" e prerrogativas especiais.

Dizer que o objetivo dos proponentes do "casamento gay" é a entrada nessa instituição é, pelo menos, questionável. A união entre duas pessoas do mesmo sexo não tem como objetivo fundamental a constituição de uma família, no sentido da criação de filhos. Ela é muito mais uma relação entre duas pessoas que partilham, além da vida cotidiana, a intimidade sexual – uma intimidade essencialmente estéril, do ponto de vista biológico. Também por essa razão, e pela própria moralidade alternativa que costuma balizar a relação homossexual, tais uniões não têm o mesmo incentivo (ou razões objetivas) para a duração, e muito menos para a indissolubilidade. O "casamento gay" simplesmente não é o casamento. É outra coisa. E dizer que os gays só querem se casar como todas as outras pessoas heterossexuais é uma falácia.

Estatísticas realizadas em diferentes países revelam alguns fatos ilustrativos: nos EUA, em casamentos tradicionais, grande parte das mulheres casadas em idade fértil têm ou pretendem ter filhos. Aí, o casamento está intimamente ligado à procriação e à criação dos filhos. Enquanto isso, na Noruega, a adoção do casamento gay em certas províncias foi acompanhado por uma significativa diminuição da proporção de nascimentos em situações de casamento oficial. Nestes lugares, a procriação foi culturalmente separada do casamento, e as crianças sujeitas a situações muito mais instáveis ao longo de seus anos de formação.

Quanto à questão dos "espíritos opostos", título da coluna: a união sexual não é uma união entre espíritos. É uma união entre corpos, e isso nem o espiritualismo mais ascético pode negar. Os corpos masculino e feminino são fundamentais para expressar a complementaridade que existe entre os sexos, uma complementaridade que é anatômica, fisiológica e hormonal, além de psíquica e espiritual, e que é a chave da criação de novos seres humanos. É exatamente essa complementaridade física que dá o caráter singular da relação de amor que intitulamos "casamento", e que, como já vimos, é a base da família. Físico, psíquico e espiritual não estão separados aqui, antes o contrário, interpenetram-se numa só realidade, expressam, ou deveriam expressar, uns aos outros. O amor sexual, físico, é uma "linguagem" em que se expressa – fisicamente – o amor psíquico e espiritual, de doação, entrega de si mesmo e de construção comum da vida familiar.

E aqui se expressa mais um atroz desentendimento de Veríssimo sobre a "religião". Pelo menos o Cristianismo, que é o principal interlocutor implícito deste debate, não vê o corpo como algo desprezível simplesmente porque é transitório. O fato da transitoriedade não invalida o fato de que o corpo físico e mortal expressa a pessoa, mesmo que somente durante a vida terrena. Aliás, para nós, cristãos, o corpo é uma realidade sagrada, fundamental, objeto do amor e da salvação de Deus, tanto quanto o "espírito" – está aí a crença na ressurreição da carne.

Não há, para nós, espírito sem corpo, e corpo sexuado. Assim, se dois homens com atração sexual pelo mesmo sexo apresentam características "femininas" e "masculinas" em sua personalidade, isso não quer dizer que ao fazerem sexo sejam homem e mulher. O ato, que é físico, continua indo contra a sua natureza de homens, e contra a própria natureza do ato sexual, que é de complementaridade e abertura para a criação da vida. E o casamento entre os dois não resolve esse problema fundamental.

Chegamos, assim, ao âmago da questão. Parece que, ao se falar sobre o "direito" dos gays ao casamento, ou que alguns gays são "conservadores" e querem se casar à moda antiga, com "parâmetros de formalidade" e "emoção", ou ainda que seus sentimentos e partilha de vida deveriam ser os únicos critérios para permitir o casamento, estamos patinando num gelo escorregadio, sem perceber a profundidade do abismo que se encontra abaixo da fina camada congelada. Toda a formalidade, o caráter público e testemunhal, bem como as proteções com que se cerca o casamento, são na verdade conseqüências da natureza fundamental dessa instituição, ou relação: a união de homem e mulher, de corpo e alma, ou seja, em sua totalidade, que dará origem aos novos membros da família humana e os ensinará desde os mais tenros anos, num ambiente estável e amoroso, a ser pessoas dignas e plenas. Nessa realidade, que é a família, se encontram intimamente interligadas: a complementaridade física e psíquica de homem e mulher que dá origem à nova vida; o processo de constante entrega e sacrifício dos próprios interesses com que se constrói um casal feliz; e a proteção e formação, a partir dessas origens sagradas, de pessoas humanas que continuarão o caminho da humanidade à realização plena.

Essa instituição vale a pena proteger e nutrir, mesmo com uma espécie de "ação afirmativa" por parte do Estado. E a sua própria definição exclui, como vimos, parceiros do mesmo sexo.


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