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16.4.08

Papa nos EUA 1 






A primeira coisa que fica clara com a visita de Bento XVI aos EUA é o cuidado e as distinções (no sentido literal da palavra) feitas ao visitante: pela primeira vez na história, aparentemente, um chefe de Estado estrangeiro foi recebido pessoalmente pelo presidente ao descer do avião, na base aérea Andrews. A chegada foi rápida e simples, sem discursos (como quando da chegada do papa ao Brasil, no ano passado), e com a limitação do público presente, devido provavelmente às precauções de segurança, mas também à cultura norte-americana que põe muita ênfase em organização.



Também não é para cada visitante oficial que a Casa Branca organiza uma cerimônia envolvendo vários símbolos tradicionais da nação e da sua história. O primeiro evento oficial, essa recepção pela manhã (num dia lindíssimo, com temperaturas de primavera), foi marcado pela solenidade (não muita característica de George W. Bush, por razões de estilo pessoal) e pela representatividade dos símbolos oficiais do país (começando pela própria Casa Branca), mas também por apresentações de uma banda tradicional do exército, caracterizada por trajes que remontam ao período da independência, tocando em flautas uma melodia muito conhecida da época. Foi como se a liderança do país quisesse “mostrar” ao papa algumas tradições e símbolos históricos da nação, não em uma amostra de nacionalismo barato, mas com o propósito de indicar que a história (e a identidade) do país são afins ao que o papa vem trazer, também.







Também foi bonito ouvir a multidão cantar parabéns ao papa, do seu lugar no gramado sul da Casa Branca.

No entanto, foram os discursos que mostraram uma interessante coincidência de objetivos estratégicos que vão além da dura realidade geopolítica e militar, mas que talvez tenham uma importância fundamental para qualquer solução permanente. Para ilustrar claramente a natureza dessa coincidência, basta dizer que o papa e o presidente, em seus discursos, citaram as mesmas palavras do mesmo documento histórico que funda a nação americana: a Declaração de Independência. As palavras em questão são a referência às “leis da natureza e do Criador da natureza,” seguidas (em ambos os discursos, pelo que me lembro) da menção de uma lei moral que pode ser encontrada no coração de cada ser humano.

As perspectivas, a partir daí, são complementares (como devem ser, em se tratando de um líder político e outro religioso), e é bom lembrar que nem todas as tendências políticas aqui aceitam a existência da lei natural; de qualquer forma, se de um lado o papa enfatizou a importância do pluralismo e da liberdade de consciência e religiosa nos EUA, como complemento à universalidade da lei moral, do outro o presidente Bush enfatizou a religiosidade dos cidadãos (não do estado em si) americanos e afirmou que estes precisam e querem ouvir a mensagem religiosa, pela vida, pela liberdade e na defesa dessa mesma lei moral natural.
Outro ponto que se sobressaiu foi a afirmação, de Bento XVI, de que a liberdade exige responsabilidade e sacrifícios, algo de que este país tem experiência concreta, testemunhada pelos inúmeros monumentos aos mortos nos conflitos em defesa da liberdade. Se, portanto, Ratzinger foi muito crítico da invasão americana do Iraque e deixou clara a sua oposição à época, isso não significa que o papa (e a tradição católica) subscreva um pacifismo radical e irresponsável, especialmente da parte daqueles que têm o poder de defender as nações de ataques militares. O que se tem aqui, não é uma troca de acusações automáticas (ao que temos estado acostumados no Brasil), mas um diálogo de alto nível baseado em valores e convicções muito próximos.
Para terminar, o ponto baixo, para mim, aconteceu logo na chegada do papa à Casa Branca, quando, ao cumprimentar a delegação do governo americano (incluindo o vice-presidente, Condolezza Rice, Mary Ann Glendon, etc.), a única pessoa a beijar a mão do papa foi Nancy Pelosi, presidente da “Câmara dos Deputados” norte-americana, e feroz apoiadora do “direito” ao aborto e semelhantes causas.
Mas, de resto, começou bem...

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