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16.4.08

Papa nos EUA 1 






A primeira coisa que fica clara com a visita de Bento XVI aos EUA é o cuidado e as distinções (no sentido literal da palavra) feitas ao visitante: pela primeira vez na história, aparentemente, um chefe de Estado estrangeiro foi recebido pessoalmente pelo presidente ao descer do avião, na base aérea Andrews. A chegada foi rápida e simples, sem discursos (como quando da chegada do papa ao Brasil, no ano passado), e com a limitação do público presente, devido provavelmente às precauções de segurança, mas também à cultura norte-americana que põe muita ênfase em organização.



Também não é para cada visitante oficial que a Casa Branca organiza uma cerimônia envolvendo vários símbolos tradicionais da nação e da sua história. O primeiro evento oficial, essa recepção pela manhã (num dia lindíssimo, com temperaturas de primavera), foi marcado pela solenidade (não muita característica de George W. Bush, por razões de estilo pessoal) e pela representatividade dos símbolos oficiais do país (começando pela própria Casa Branca), mas também por apresentações de uma banda tradicional do exército, caracterizada por trajes que remontam ao período da independência, tocando em flautas uma melodia muito conhecida da época. Foi como se a liderança do país quisesse “mostrar” ao papa algumas tradições e símbolos históricos da nação, não em uma amostra de nacionalismo barato, mas com o propósito de indicar que a história (e a identidade) do país são afins ao que o papa vem trazer, também.







Também foi bonito ouvir a multidão cantar parabéns ao papa, do seu lugar no gramado sul da Casa Branca.

No entanto, foram os discursos que mostraram uma interessante coincidência de objetivos estratégicos que vão além da dura realidade geopolítica e militar, mas que talvez tenham uma importância fundamental para qualquer solução permanente. Para ilustrar claramente a natureza dessa coincidência, basta dizer que o papa e o presidente, em seus discursos, citaram as mesmas palavras do mesmo documento histórico que funda a nação americana: a Declaração de Independência. As palavras em questão são a referência às “leis da natureza e do Criador da natureza,” seguidas (em ambos os discursos, pelo que me lembro) da menção de uma lei moral que pode ser encontrada no coração de cada ser humano.

As perspectivas, a partir daí, são complementares (como devem ser, em se tratando de um líder político e outro religioso), e é bom lembrar que nem todas as tendências políticas aqui aceitam a existência da lei natural; de qualquer forma, se de um lado o papa enfatizou a importância do pluralismo e da liberdade de consciência e religiosa nos EUA, como complemento à universalidade da lei moral, do outro o presidente Bush enfatizou a religiosidade dos cidadãos (não do estado em si) americanos e afirmou que estes precisam e querem ouvir a mensagem religiosa, pela vida, pela liberdade e na defesa dessa mesma lei moral natural.
Outro ponto que se sobressaiu foi a afirmação, de Bento XVI, de que a liberdade exige responsabilidade e sacrifícios, algo de que este país tem experiência concreta, testemunhada pelos inúmeros monumentos aos mortos nos conflitos em defesa da liberdade. Se, portanto, Ratzinger foi muito crítico da invasão americana do Iraque e deixou clara a sua oposição à época, isso não significa que o papa (e a tradição católica) subscreva um pacifismo radical e irresponsável, especialmente da parte daqueles que têm o poder de defender as nações de ataques militares. O que se tem aqui, não é uma troca de acusações automáticas (ao que temos estado acostumados no Brasil), mas um diálogo de alto nível baseado em valores e convicções muito próximos.
Para terminar, o ponto baixo, para mim, aconteceu logo na chegada do papa à Casa Branca, quando, ao cumprimentar a delegação do governo americano (incluindo o vice-presidente, Condolezza Rice, Mary Ann Glendon, etc.), a única pessoa a beijar a mão do papa foi Nancy Pelosi, presidente da “Câmara dos Deputados” norte-americana, e feroz apoiadora do “direito” ao aborto e semelhantes causas.
Mas, de resto, começou bem...

4.3.04

Veríssimo e o casamento gay (ou, por uma visão profunda do casamento contra a superficialidade da sociedade atual) 

A coluna do Veríssimo no jornal O Globo de hoje é, em vários aspectos, um desastre. Pode até que ser que o famoso humorista, tido por muitos também – e simultaneamente – como um sério pensador sobre a vida social e política brasileira, esteja apenas refletindo opiniões hoje comuns em nosso meio. Mas isso não invalida o fato de que esse formador de opinião seja um veículo do aumento da confusão e diminuição da claridade dos argumentos em torno de um assunto muito importante: o futuro da família.

Na coluna, Veríssimo endossa lugares-comuns duvidosos; enreda-se numa completa salada filosófica sobre a relação amorosa; faz uma afirmação falsa, senão mentirosa, sobre princípios religiosos; e transforma o casamento numa simples e pomposa formalidade. Senão, vejamos.

Ele afirma que gays desejam casar-se por serem "mais conservadores que seus críticos" e imagina que na maioria dos casos buscam "toda a carga de tradição e emoção" dos casamentos de seus pais. A seguir, filosofa sobre o "feminino" e o "masculino" presentes em todas as relações homossexuais, pelo menos nas características de personalidade e comportamento dos parceiros sexuais, ou seja, "em espírito". Para ele, isso tornaria essas relações perfeitamente aceitáveis para os sistemas religiosos, que postulam encontrar-se a pessoa essencialmente no “espírito” e não no corpo, que é "transitório". Quer dizer, se os "espíritos" têm o sexo oposto, tudo bem, é a mesma coisa, e as religiões são "materialistas e contraditórias" ao condenar a homossexualidade. (E a gente que achava que o sexo dos anjos era sinônimo de discussão fútil...) Por fim, o sério humorista reafirma sua convicção de que tudo isso significa que os gays seguem a tendência geral das novas gerações por "parâmetros formais" e "cerimônia". O que seria o casamento, a não ser precisamente uma cerimônia formalista, repetitiva e chata?

Me permito, se me permitem, indicar as principais pré-concepções presentes nessa linha de "pensamento". A primeira é a de que os gays querem simplesmente ter acesso à mesma instituição que os heterossexuais, com toda a tradição e emoção que ela envolve. A segunda é a de que o que as pessoas são é uma questão puramente subjetiva – o "espírito" – algo que não tem relação nenhuma com determinações e limitações objetivas, físicas ou psíquicas, podendo, portanto, ser objeto de construção ou reconstrução por parte de cada um. A terceira é a de que as religiões concordam com isso, pois entre corpo e espírito, preferem o espírito e consideram o corpo um veículo transitório. A quarta é uma reelaboração da primeira, que diz do casamento ser apenas uma formalidade que traz em seu ritual elaborado uma aparência de seriedade e muita emoção: "véu, grinalda e gravatas prateadas opcionais".

E tudo isso pode ser resumido a duas palavras: subjetivismo e sentimentalismo.

No entanto, o que está em jogo é muito mais do que aparência, emoção, ou a satisfação das necessidades subjetivas de cada um através de rituais, emoções e relacionamentos sexuais entre espíritos opostos. Para começar, o casamento não é uma simples cerimônia, é a base da constituição da família, a instituição humana onde as pessoas primeiro aprendem a ser pessoas. Ou seja, o casamento cria o ambiente seguro e estável onde as pessoas em formação aprendem a se relacionar sobre o fundamento de valores, atitudes e linguagens comuns, por meio de rituais e doações mútuas, cotidianas, de bens, serviços, afetividade, apoio moral.

Seja qual for a cultura, as crianças humanas sempre precisaram do apoio, da nutrição de comida, conhecimentos, valores e afetos que as famílias, nucleares ou estendidas, lhes podem fornecer. Modelos de conduta e relacionamento, o pai e a mãe (os pais, as mães) são mais do que companheiros de vida dos filhos, são sua base relacional, sua ligação com o passado e suporte para os passos futuros. E a civilização ocidental, com sua ênfase sobre a unicidade da pessoa, trouxe para o interior dessa relação a força do amor pessoal, sacrificial de si mesmo, que constitui a gratuidade e a entrega de vida de um pai e uma mãe um pelo outro e pelos filhos. A Igreja Católica viu nesse ambiente – a partir mesmo de sua herança israelita – o desígnio do próprio Deus para o ser humano, e elevou-o à condição de um sacramento em que a entrega mútua dos esposos revela a entrega de Jesus pela Igreja. Esse é Matrimônio celebrado nos altares, verdadeiro sentido da tradição e motivo da emoção que o circunda (mas não o define).

É essa, aliás, a razão profundamente social – a criação e a proteção das crianças – pela qual o Estado abre mão de receitas e envolve a família com determinados "privilégios" e prerrogativas especiais.

Dizer que o objetivo dos proponentes do "casamento gay" é a entrada nessa instituição é, pelo menos, questionável. A união entre duas pessoas do mesmo sexo não tem como objetivo fundamental a constituição de uma família, no sentido da criação de filhos. Ela é muito mais uma relação entre duas pessoas que partilham, além da vida cotidiana, a intimidade sexual – uma intimidade essencialmente estéril, do ponto de vista biológico. Também por essa razão, e pela própria moralidade alternativa que costuma balizar a relação homossexual, tais uniões não têm o mesmo incentivo (ou razões objetivas) para a duração, e muito menos para a indissolubilidade. O "casamento gay" simplesmente não é o casamento. É outra coisa. E dizer que os gays só querem se casar como todas as outras pessoas heterossexuais é uma falácia.

Estatísticas realizadas em diferentes países revelam alguns fatos ilustrativos: nos EUA, em casamentos tradicionais, grande parte das mulheres casadas em idade fértil têm ou pretendem ter filhos. Aí, o casamento está intimamente ligado à procriação e à criação dos filhos. Enquanto isso, na Noruega, a adoção do casamento gay em certas províncias foi acompanhado por uma significativa diminuição da proporção de nascimentos em situações de casamento oficial. Nestes lugares, a procriação foi culturalmente separada do casamento, e as crianças sujeitas a situações muito mais instáveis ao longo de seus anos de formação.

Quanto à questão dos "espíritos opostos", título da coluna: a união sexual não é uma união entre espíritos. É uma união entre corpos, e isso nem o espiritualismo mais ascético pode negar. Os corpos masculino e feminino são fundamentais para expressar a complementaridade que existe entre os sexos, uma complementaridade que é anatômica, fisiológica e hormonal, além de psíquica e espiritual, e que é a chave da criação de novos seres humanos. É exatamente essa complementaridade física que dá o caráter singular da relação de amor que intitulamos "casamento", e que, como já vimos, é a base da família. Físico, psíquico e espiritual não estão separados aqui, antes o contrário, interpenetram-se numa só realidade, expressam, ou deveriam expressar, uns aos outros. O amor sexual, físico, é uma "linguagem" em que se expressa – fisicamente – o amor psíquico e espiritual, de doação, entrega de si mesmo e de construção comum da vida familiar.

E aqui se expressa mais um atroz desentendimento de Veríssimo sobre a "religião". Pelo menos o Cristianismo, que é o principal interlocutor implícito deste debate, não vê o corpo como algo desprezível simplesmente porque é transitório. O fato da transitoriedade não invalida o fato de que o corpo físico e mortal expressa a pessoa, mesmo que somente durante a vida terrena. Aliás, para nós, cristãos, o corpo é uma realidade sagrada, fundamental, objeto do amor e da salvação de Deus, tanto quanto o "espírito" – está aí a crença na ressurreição da carne.

Não há, para nós, espírito sem corpo, e corpo sexuado. Assim, se dois homens com atração sexual pelo mesmo sexo apresentam características "femininas" e "masculinas" em sua personalidade, isso não quer dizer que ao fazerem sexo sejam homem e mulher. O ato, que é físico, continua indo contra a sua natureza de homens, e contra a própria natureza do ato sexual, que é de complementaridade e abertura para a criação da vida. E o casamento entre os dois não resolve esse problema fundamental.

Chegamos, assim, ao âmago da questão. Parece que, ao se falar sobre o "direito" dos gays ao casamento, ou que alguns gays são "conservadores" e querem se casar à moda antiga, com "parâmetros de formalidade" e "emoção", ou ainda que seus sentimentos e partilha de vida deveriam ser os únicos critérios para permitir o casamento, estamos patinando num gelo escorregadio, sem perceber a profundidade do abismo que se encontra abaixo da fina camada congelada. Toda a formalidade, o caráter público e testemunhal, bem como as proteções com que se cerca o casamento, são na verdade conseqüências da natureza fundamental dessa instituição, ou relação: a união de homem e mulher, de corpo e alma, ou seja, em sua totalidade, que dará origem aos novos membros da família humana e os ensinará desde os mais tenros anos, num ambiente estável e amoroso, a ser pessoas dignas e plenas. Nessa realidade, que é a família, se encontram intimamente interligadas: a complementaridade física e psíquica de homem e mulher que dá origem à nova vida; o processo de constante entrega e sacrifício dos próprios interesses com que se constrói um casal feliz; e a proteção e formação, a partir dessas origens sagradas, de pessoas humanas que continuarão o caminho da humanidade à realização plena.

Essa instituição vale a pena proteger e nutrir, mesmo com uma espécie de "ação afirmativa" por parte do Estado. E a sua própria definição exclui, como vimos, parceiros do mesmo sexo.


19.2.04

O valor do embrião humano 

O editorial do Globo de hoje expressa perplexidade com o que chama de hipocrisia ou ignorância dos deputados federais que aprovaram uma Lei de Biossegurança que proíbe a pesquisa sobre células-tronco a partir de embriões. O jornal contrasta essa postura com a falta de preocupação sobre outras questões que envolvem a vida do embrião, como o uso de pílulas do dia seguinte e/ou DIUs - ambos abortivos - e a reprodução assistida em que embriões são rotineiramente descartados. O preço de tal hipocrisia, além disso, seria nada menos do que "bloquear o avanço da ciência brasileira", relativamente a pesquisadores de outras partes do mundo, como a Coréia.

Logo abaixo desse editorial, a "outra opinião", de Frei Antonio Moser, diz que "não há paraíso fácil", mostrando que a tão propalada facilitação da cura para males até agora incuráveis - como o mal de Parkinson - obtida através da pesquisa com células-tronco embrionárias seria, na verdade, a troca de um mal por outro, talvez pior, que é a arbitrária terminação de vidas humanas.

Enquanto católicos, que reconhecemos a unidade e a sacralidade de cada vida humana, sonhada por Deus desde a eternidade, da concepção até a morte, devemos concordar, neste caso, com a "outra opinião". Mas é inegável que o editorial de O Globo está certo sobre uma coisa: o mesmo embrião salvo por essa Lei não seria salvo se fosse o resultado supérfluo de um processo de fertilização in vitro. Ou se chegasse a um útero invadido por um dispositivo intra-uterino. E eu não vejo muitos católicos preocupados, e menos ainda fazendo algo sobre isso.

Parece que o embrião humano é pequeno demais para se fazer ouvir em certos casos, mesmo a nós, católicos. Mas é a nossa própria humanidade que é ferida, senão morta, quando nos tornamos cúmplices - mesmo que por omissão - da manipulação de embriões como "aglomerados de células", simples coisas que podem ser objeto de intervenção para a obtenção de algum bem ou para evitar algum desconforto futuro.

Isso acontece de fato, porque a cada manipulação isolada de um embrião
como meio para determinado fim, duas coisas acontecem.

Em primeiro lugar, é reafirmada na prática uma concepção de ser humano baseada na utilidade, no uso, no servir para os outros, pois o embrião só é reconhecido como digno de proteção na medida em que significa algo para alguém, em que (na projeção dos outros) pode ser bonitinho, falar e andar, enfim, na medida em que se adequa ao projeto pessoal dos pais, ou ao projeto coletivo da sociedade. O valor do ser humano seria dado, então, pelo que "tem" (ou não) a oferecer, em função do que pode acrescentar (ou diminuir) a quem vai tomar a decisão sobre esse valor.

Em segundo lugar, como conseqüência do anterior, a dignidade do ser humano é diminuída - tanto a do ser humano sendo arbitrariamente valorado quanto a do que avalia. É isso que se propõe deixar acontecer à nossa sociedade?

É preciso recuperar a visão do ser humano como um ser que vale pelo que é, objetivamente - uma vida com valor em si mesma, que exige que se criem atitudes e práticas de proteção, cuidado, enfim, de amor para com ela. (Hoje em dia, parece ser o contrário que acontece: a vida só tem valor na medida em que ela é desejada, em que é útil para satisfazer algum desejo).

E se por um lado essa unidade ontológica e metafísica - o ser humano - existe e tem valor em si, por outro lado só existe enquanto é "expressa" através de um corpo, físico, que experimenta uma continuidade singular, ainda que em constante evolução - desde a concepção até a morte. Essa continuidade é baseada num código genético particular, mas não só: também na autonomia do próprio desenvolvimento físico, como um organismo auto-contido que "dita" as próprias regras, a forma e o ritmo desse desenvolvimento - ainda que dependendo do ambiente externo para crescer.

A Igreja (e em particular João Paulo II) está, assim, corretíssima ao propor uma "teologia do corpo" como fundamento de uma antropologia adequada à dignidade do ser humano. O corpo não é uma simples coisa que a gente usa para viver, ter prazer, conquistar objetivos. Ao contrário, o meu corpo "sou eu", expressa a minha pessoa. E a sociedade teria muito a aprender com essa importância dada ao corpo humano, como modo de expressão de um ser livre, que em sua interioridade infinita pode ser sujeito de sua própria vida, e por isso não pode ser tido somente como meio, mas sempre um fim em si mesmo.

Pois ao valorizar as pessoas somente a partir de características secundárias, ou seja, daquilo que o ser humano (e o corpo) tem a oferecer - e não do que o ser humano é - nossa sociedade está separando o corpo da alma, cometendo um pecado que já acusou a própria cristandade de cometer. Com isso, é a própria humanidade que deixa de ser um fim em si mesma, e passa a ser objeto de uso para quem se apresentar com poder suficiente e a vontade de exercê-lo.

12.2.04

Mais fácil comentar os posts... 

Caros,

Para facilitar a vida de todos, e a minha, adotei um sistema de comentários a partir de um site-recurso muito legal, o Halo Scan (veja o último link à direita).

Não se façam de rogados!!

O magistério e a mídia 

Quem tem maior poder para estabelecer as nossas "verdades" hoje em dia? Em quem colocamos mais a nossa confiança?

O alerta do Papa João Paulo II, sobre as distorções e más interpretações dos ensinamentos da Igreja pela mídia, deve interpelar mais a nós, Igreja, do que à própria mídia.

Diz ele, com toda a razão, que os fiéis são comumente desorientados e confundidos pelas distorções que a mídia introduz em sua reportagem dos fatos. Tipo, por exemplo, as alusões ao ensinamento moral da Igreja sobre a castidade com um tom de ridículo e estranhamento que beiram o olhar sobre algo alienígena... Isso, em princípio, não é culpa da mídia - os pobres repórteres que escrevem os textos provavelmente nunca tiveram a oportunidade de olhar para fora do seu mundinho em que o sexo é uma prática física que pode ser tranqüilamente separada do emocional, psíquico e espiritual (se é que esta dimensão ainda é considerada humana...)

Agora, com maior razão explica o Papa - diretamente para nós - que "a recepção de um documento, mais do que um fato midiático, deve-se considerar sobretudo como um evento eclesial de acolhida do Magistério na comunhão".

A quantos eventos eclesiais temos ultimamente ido, nós, para celebrar e acolher o Magistério vivo e ativo da Igreja, através da leitura atenta e meditativa de documentos da Igreja? E não só daqueles que "interessam"? Eu só me lembro de ter feito, há muito tempo, a leitura da Fides et Ratio, quando ela saiu.

Quantos círculos cristãos católicos realmente leram o documento "Dominus Jesus", ou a encíclica "Ecclesia de Eucharistia", e não apenas receberam da mídia declarações como "Igreja rejeita as outras confissões cristãos", ou "Igreja continua a discriminar divorciados re-casados"?

Fica a sugestão.

O debate sobre o véu, o véu sobre o debate... 

Agora só falta o Senado francês aprovar a lei que proíbe, definitivamente, o uso de "símbolos religiosos ostensivos". O principal significado da expressão entre aspas é, por enquanto, o famoso véu usado por algumas garotas muçulmanas, que há alguns anos atrás já foi manchete, no tal "affair du foulard".

Dizem os defensores (como o primeiro ministro Raffarin) que é uma vitória da "laicidade" na França, ou uma derrota de um dos símbolos do "fundamentalismo islâmico", sinal de opressão das mulheres.

É pena que a iniciativa não vai ter utilidade nem para uma coisa nem para outra.

Primeiro porque o véu não precisa necessariamente ser um símbolo de opressão das mulheres, no caso, por exemplo, em que as próprias mulheres entendem e aderem à lógica religiosa e ética do costume do véu. Além disso, como explica Amir Taheri, já há véus, utilizados por mulheres muçulmanas, criados pelas grifes Hermes, L'Oreal e Calvin Klein, de vários estilos (que deixam o pescoço e e as orelhas à vista, ou até mesmo transparentes). E mesmo nos casos em que o seja opressivo, não é proibindo as moças de entrar na escola que se vai acabar com a opressão. Por fim, há diversos estilos e tipos de véus, um para cada tradição religiosa muçulmana - vão ser todos catalogados?

E depois, quem vai decidir o que é ou não é "ostensivo"? E isso não se aplica somente aos muçulmanos, pois parece que "grandes cruzes" também serão proibidas nos peitos dos alunos e alunas. Não, ainda não há uma medida em centímetros que defina o que é uma "grande cruz". Ou, para falar de outra tradição religiosa, uma "barba religiosamente ostensiva".

Estamos, aqui, no centro da questão: que "laicidade" é essa que se preocupa tanto com as manifestações religiosas de indivíduos ou grupos particulares? A "laicidade", na França, é um ponto central de uma das mais importantes tradições da nação francesa, que se vê como o berço da República, do laicismo, dos valores universais.

A "laicidade" francesa, no entanto, me parece um pouco mais complicada, pois o seu "mito de origem", a Revolução Francesa, foi marcada por um forte anti-clericalismo. Tende, assim, a ser, mais do que uma neutralidade pública, a afirmação de uma ideologia anti-religiosa, defensiva (ao contrário dos EUA, em que nem se fala exatamente de laicidade, mas de "liberdade religiosa", já que os grupos que fundaram a nação eram todos, como se sabe, protestantes).

O Estado francês, assim, quase acaba adotando uma "religião" oficiosa: o ateísmo. E se sente muito desconfortável com manifestações públicas de outras religiões, ainda mais nas instituições formadoras da nacionalidade por excelência, as escolas...

Como resultado, temos uma atmosfera em que se pode muitas vezes cair em arbitrariedade: a (in)discrição dos símbolos religiosos está muito mais nos olhos de quem vê e se incomoda com eles, do que nos próprios.

Fico com o insight de Amir Taheri: "lutar contra símbolos é, na melhor hipótese, um empresa quixotesca, e na pior, um sintoma de insegurança nacional".

11.2.04

Sobre o poema "Se amar fosse fácil"... 

O poema encontra-se no "post" anterior.

Pe. Zezinho é um exemplo de espiritualidade equilibrada, que vê o Reino de Deus como um dom pessoal, ao mesmo tempo que social - já que, no fundo, são a mesma coisa, e estão no mesmo lugar. Fiel à Igreja e seu ensinamento, e ainda assim sabe utilizar todo o espaço de liberdade e iniciativa possibilitado - mas não pré-determinado - por essa fidelidade.

Sabe falar, cantar e pregar para a vocação leiga e para a vocação religiosa - isso faz parte de sua vocação de sacerdote, pastor.

E é interessante a música: "Se amar fosse fácil" (com ênfase no "fosse") é de um profundo realismo, pois não fica dizendo que a sociedade perfeita está na próxima esquina (nem no próximo século) - já que amar não é fácil, nem será -, mas nem por isso deixa de exortar-nos a amar - já que amar não é fácil, nem será.

Especialmente significativa para mim - depois de ter feito mais um retiro em Itaici, em janeiro - é a frase "Jesus não brincava quando nos mandou amar". Para nós, para mim, o "esquecer-se de si" do amor pode ser meio pesado e ter conseqüências não muito agradáveis...

Se amar fosse fácil... 

Se amar fosse fácil...

Se amar fosse fácil,
não haveria tanta gente amando mal,
nem tanta gente mal amada.


Se amar fosse fácil,
não haveria tanta fome,
nem tantas guerras,
nem gente sem sobrenome.

Se amar fosse fácil,
não haveria crianças nas ruas sem
ter ninguém, nem haveria orfanatos,
porque as famílias serenas adotariam
mais filhos, nem filhos mal concebidos,
nem esposas mal amadas,
nem mixês,
nem prostitutas.

E nunca ninguém negaria o que jurou num altar,
nem haveria divórcio e nem
desquite, jamais...

Se amar fosse tão fácil,
não haveria assaltantes e as mulheres
gestantes não tirariam seu feto,
nem haveria assassinos,
nem preços exorbitantes nem
os que ganham demais,
nem os que ganham de menos.

Se amar fosse tão fácil nem soldados
haveria, pois ninguém agrediria,
no máximo ajudariam no combate
ao cão feroz.

Mas o amor é sentimento que depende
de um "eu quero", seguido de um
"eu espero";e a vontade é rebelde,
o homem,um egoísta que maximiza
seu "eu" por isso,
o amor é difícil.

Jesus Cristo não brincava quando
nos mandou amar.
E, quando morreu amando
deu a suprema lição.

Não se ama por ser fácil,
ama-se porque é preciso!

( Pe. Zezinho, )

Saiu no Globo... 

Só para constar, saiu no Globo de domingo passado a minha carta sobre o projeto de lei dos transgênicos, salientando a importância de maior discussão e conhecimento sobre a pesquisa científica com células-tronco e a proteção de embriões humanos...

6.2.04

Enquanto isso, no interior da caixa-preta... 



O Supremo Tribunal Federal estabeleceu o teto do funcionalismo público em módicos 19.000 e tantos reais. Bem, parece que esse valor corresponde ao que os ministros ganham ordinariamente, mais os aumentos por tempo de serviço.

Agora, abriram uma brecha que pode ser usada por vários outros servidores: podem ganhar mais que isso (até 5.000 reais a mais, parece) por trabalhar no TST, durante épocas eleitorais.

Diz o Maurício Corrêa, defensor da classe, que o juiz não pode trabalhar de graça, durante esses períodos, daí a receber a mais.

Fica a pergunta: como eles não são dois, o tempo que trabalharem no TST não será trabalhado no STF - porque então não descontar do salário do STF por essas horas não-trabalhadas??

A cada reunião, o STF parece mostrar mais a necessidade do controle externo...

Projeto de Lei dos Transgênicos - ponto para quem? 



Aprovado ontem na Câmara dos Deputados, foi elogiado por chegar a um meio termo entre as duas posições principais, no tocante aos poderes da CNTBio e dos Ministérios.

Há, no entanto, um detalhe não muito comentado, que deve ser muito celebrado: a restrição da obtenção de células-tronco para pesquisa científica a fontes não-embrionárias. Não sei exatamente como se chegou a esse ponto (parece que a Marina da Silva é evangélica), mas é correto.

O ideal seria que a sociedade tivesse a consciência da importância dessa restrição, para que conquistas como essa dificilmente sejam ameaçadas no futuro.

5.2.04

Os atributos da Janet Jackson 

O Artur Xexéo, colunista do Segundo Caderno de O GLOBO, escreveu ontem (terça-feira) sobre os atributos da Janet Jackson e o escândalo causado na sociedade norte-americana quando ele mostrou o seio durante o Super Bowl.
Prato feito para aquele senso comum que diz que são uns "hipócritas", "moralistas" etc. etc. etc...
Mas além disso, ele pretendeu (ainda que por generalização ensaística, ou licença poética) falar em nome da família brasileira, que está - na opinião dele - a anos-luz da americana e não se escandaliza mais nem com a novela das oito...
Escrevi uma carta para ele, sobre uma visão alternativa do affair Janet Jackson e da família brasileira...
Aí está:

"Prezado Xexéo,

Sobre sua coluna de ontem, no jornal O GLOBO: você tem todo o direito de não ficar chocado pela exibição dos seios da Janet Jackson no SuperBowl, ou dos atributos das atrizes globais nas novelas do horário "nobre". Agora, com todo o respeito, não me lembro de ter você recebido procuração da "família brasileira" para pontificar, em nome dessa instituição tão heterogênea, sobre o seu abalo ou não diante da exibição dos mesmos atributos. Aliás, se boa parte dos componentes das famílias brasileiras que ainda assistem a essa peculiar produção cultural da TV Globo realmente não foi abalada, eu diria que isso pode ser um sinal de como o sexo está banalizado hoje em dia, no Brasil.

Não se trata de um moralismo pudico, bobo, do tipo "Oh! Seios!! Oh!". Não me entenda mal, seios são parte natural do corpo da mulher, corpo humano, bonito, para alguns até sagrado. Mas, como o contexto é tudo, pode ser que pais e mães preocupados com que seus filhos e filhas cresçam com uma concepção saudável e ética do corpo e do sexo, e da atração sexual como algo natural e conducente ao amor, à partilha da própria vida, se incomodem com a exibição dos seios femininos no contexto de músicas e coreografias que traduzam qualquer coisa menos a beleza e a bondade do sexo. Ainda mais quando o SuperBowl - agora, voltando para o caso norte-americano - é uma das poucas atrações televisivas que reúnem toda a família diante da telinha, numa programação anunciada como adequada para todas as idades.

Portanto, não se espante, nem ridicularize a preocupação da sociedade americana, que se traduz nas reações que se viram ao "espetáculo". Antes, permita-se ser questionado por essa reação e seu significado - a proteção dos pequeninos que ainda estão em formação, física, emocional e ética da exposição a certos contra-valores e anti-práticas. Ou pelo menos reconheça o direito de algumas famílias a cultivarem e transmitirem valores e práticas saudáveis a seus filhos, e de serem abaladas quando se sentem traídas pelos meios de comunicação, que deveriam ajudar nessa tarefa.

Abraços,

Gustavo Adolfo Santos.
Niterói, RJ"

O mercador ditoso 

Encontrar a pérola mais valiosa, para um mercador de pérolas preciosas, deve ser a oportunidade de uma vida. Mais do que outras pessoas, leigas no assunto, o negociante sabe quanto lucro aquele item pode lhe trazer. Por essa razão, vender tudo o que possui não deve significar nenhum grande dilema, se essa é a única maneira de comprar a jóia. Puro cálculo econômico...

É claro, tem aquele vaso antigo, muito bonito, também bastante valioso, que está exposto em sua casa há alguns anos e se tornou um deleite para os olhos que chegam cansados em casa, ao final de um dia de trabalho árduo. Dá uma certa pena se separar dele. No entanto, é só lembrar da alvura espessa da pérola preciosa, sinal inequívoco de sua pureza e valor, para que o negociante se sobreponha ao admirador de vasos raros que também subsiste nele: daria para comprar uns três vasos mais bonitos com apenas uma das numerosas parcelas resultantes da compra da pérola. Está decidido.

Jesus não teve nenhum tipo de escrúpulo em comparar a conversão a Deus e a seu reino dos céus ao cálculo econômico, maximizador de lucros, do mercador de pérolas. E por que deveria? De fato, se o ser humano tem dentro de si uma bússola, que o leva a querer a satisfação plena, a felicidade, a tranqüilidade e a segurança, nada mais natural ou racional do que subordinar todo o resto a esse objetivo maior.

Somos sempre assim: é só o objeto de desejo se avolumar em nosso interior, começamos – antes mesmo que nossa vontade consciente se aperceba disso – a reorganizar a tudo e a todos para alcançá-lo. Mudam-se os horários, sacrificam-se os supérfluos, toda hora é hora de dar um passinho que seja a mais para se aproximar do que queremos.

Isso não foi colocado em nós por acaso, nem é sinal de nosso irredimível egoísmo e teimosia. Como prova, coloque-se no lugar do objeto de desejo – a pérola, o tesouro escondido – o Reino dos Céus, como Jesus o fez. Quando a doação, o serviço, o esquecer-se de si mesmo para fazer o bem ao próximo (e assim conhecer, amar e louvar a Deus) são reconhecidos – e desejados – como as maiores fontes de felicidade, funciona em nós aquela mesma dinâmica que fez com que o mercador de jóias pensasse por um segundo no vaso que tinha em casa, apenas para reafirmar em seguida sua decisão de vender tudo o que possuía. O vaso era, então, apenas um obstáculo.

Nessa situação, somos capazes de tomar as decisões necessárias para, rejeitando o que nos impede e abraçando o que nos ajuda a alcançar esse novo objetivo, encontrar alegria, felicidade e paz. E isso é liberdade.

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